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Diversos

Crítica e Autocrítica – 1ª parte

Antonio_Sergio_Valente

[Antônio Sérgio Valente]

Quem tem medo da crítica?

A observação crítica, em qualquer setor da vida, quase sempre gera algum desconforto inicial, e isto vale tanto para quem a faz, como para quem a recebe. 

Não é à toa que uma das primeiras providências de qualquer ditadura é vigiar a representação política, a manifestação artística e a imprensa, que são os principais veículos da crítica.

O medo sempre ronda a crítica. De um lado, está o medo que o ditador tem de ser contestado, de que percebam que ele é um blefe, de que a opinião pública seja insuflada contra o seu governo, de que haja uma insurreição popular e ele tenha de deixar o poder na marra, direto para a masmorra ou para a cova. De outro lado, está o medo de quem faz a crítica, eis que, não raramente, os críticos mais veementes são cassados, demitidos, transferidos, rebaixados, deportados, presos e até assassinados em porões tenebrosos.

Mas a crítica gera receios e incômodos não só nas ditaduras. Embora em tese, por sua natureza, as democracias devessem abrir-se à dialética, à ampla troca de ideias, ao debate franco e construtivo, com liberdade plena de expressão, na prática também nelas ocorre algo que lembra as ditaduras, ainda que em proporções menores, de maneiras mais sutis e veladas. É o silêncio diante de críticas procedentes, para não acusar o golpe e impedir a polêmica; é a substituição de um escândalo por outro, para que o anterior saia das manchetes mais rapidamente; é a mordaça travestida de verba de propaganda injetada nos veículos de comunicação; é a claque montada para a réplica não fundamentada, meramente ofensiva e diversionista, dirigida à pessoa do crítico ou à instituição ou grupo dos quais participa, sempre a fim de desviar o foco da crítica e, assim, mitigá-la.

Portanto, nas democracias, os instrumentos de contenção e repressão da crítica são outros, mas também existem. É que a crítica é sempre uma pedra no sapato de quem a recebe e de quem a faz. Ela incomoda, chateia, reclama providências.

Crítica e Evolução

O homem é por natureza um ser crítico. Não o fosse e ainda viveria nas cavernas, a civilização não existiria. São os desconfortos da crítica que provocam a evolução. Ela própria tem evoluído muito no mundo moderno. Com a multiplicação dos meios de comunicação, as modernas tecnologias editoriais, a imensa facilidade de dar publicidade a fatos, fotos, textos, reflexões, etc., através do papel, do vídeo, da tela, das ondas do rádio, dos palcos ou da internet, e também com a maior consciência dos direitos de cidadania, incluindo os de consumidor e de contribuinte, o poder da crítica cresce e se espraia enormemente.

Sobretudo na última década, a crítica vem deixando de ser operada apenas por representantes eleitos e pelos meios convencionais (jornal, revista, rádio, tevê, teatro, cinema, livro), e passa a ser exercida por vastos setores da sociedade, por pessoas comuns, estudantes, servidores públicos, escritores, artistas em geral, profissionais de diversas especialidades, gente que se manifesta em blogs, sites, redes sociais, correio eletrônico, etc.

A mudança comportamental é tão séria que corporações e governos passam a demonstrar enorme preocupação com a crítica, eis que esta pode afetar a imagem da empresa, da instituição, do partido, do órgão público, do servidor e do agente político. O descaso com a crítica pode diminuir lucros, prestígio e até popularidade. A crítica fundamentada e bem difundida pode tirar alguém do poder, ou conduzir alguém até lá. Tanto isto é verdade que nos últimos anos tem sido corriqueira a instalação de ouvidorias em empresas, entidades e órgãos públicos, que nada mais são do que departamentos criados para pesquisar, coligir, sopesar, encaminhar e corrigir distorções criticadas nas diversas modalidades de comunicação.

Está havendo uma evolução enorme nessa área e ainda não se atingiu o apogeu da mudança. Eis que há milhões de pessoas em fase de inclusão digital, internautas do futuro próximo, desde os que serão meramente navegadores aos mais comunicativos, os multiplicadores de opiniões.

O fato insofismável é que quem se preza, preza a crítica, e tem cada vez mais motivos para prezá-la. Não há dúvida nenhuma sobre isto. A própria produção crítica tradicional se critica a si mesma. Não raramente o jornal tem ombdusman, cuja função é a crítica do próprio jornal, a autocrítica, apontar falhas, notícias inconsistentes, falta de fundamento de certas matérias, incoerências em opiniões, etc.

Até o papa, para citar um exemplo atual, ouve críticas e as leva em conta em seu exame de consciência, em sua autocrítica, digamos assim. Percebe problemas administrativos ou de conduta no seio da Igreja, que exigem providências mais enérgicas, talvez mais atitude e pulso firme, de um lado, ou talvez mais tolerância em relação a certos comportamentos sociais, de outro, quem sabe uma nova compreensão das relações familiares, ou a urgência de maior abertura ecumênica, etc., mas em contraponto, a autocrítica lhe diz que há problemas consigo próprio, de saúde, disposição e ânimo para enfrentar todas aquelas demandas, uma ausência de forças físicas e mentais que o impedem de agir como deve, e então ele decide, a partir dessa enorme massa crítica — ele, o papa, o infalível — que o melhor a fazer é seguir por outro caminho: ouvir a voz crítica da consciência e recolher-se. Decisão difícil, não teria sido tomada sem um bom par de joelhos, muito sacrário, coragem e humildade. Certamente, influenciada pelas críticas recebidas, por sua observação criteriosa do mundo, do meio que o cerca e de si mesmo, por uma autocrítica que sem dúvida passou por intensa meditação e talvez até pela insônia.

Tudo isto para dizer que a crítica e a autocrítica sobre o próprio trabalho são fundamentais, razão pela qual chega em boa hora o Blog da AFRESP. Que venha com crítica qualificada, refletida, sopesada, construtiva e responsável. Que seja uma vitrine da competência, da lisura, da coragem e do labor criativo do fisco paulista. Que não se torne um veículo chapa branca, omisso ou submisso, hipóteses em que não estaria cumprindo o seu papel. Pelo contrário, que venha sem medo de pôr o dedo nas feridas, de apontar os problemas, de esmiuçá-los, de sugerir alternativas, de colaborar com o governo, com o serviço público e com a sociedade.

Que o Blog da AFRESP venha para ficar. Que possa tornar-se uma arena de debates sérios sobre temas econômicos, tributários e de pessoal. Que não tenha a menor intenção de interferir na área sindical ou da própria AFRESP, nos temas intestinos e político-eleitorais de nenhuma entidade classista. Que não venha para acusações pessoais contra os quadros da cúpula fazendária ou do governo, que não os adjetive de forma pejorativa, porém atue como fórum qualificado de análises e propostas, com críticas fundamentadas, eis que vem concebido para tornar-se vitrine da importância, da lisura, da competência, da coragem e da criatividade laboriosa do fisco paulista.

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