Você está lendo...
Diversos

Crítica e Autocrítica – 2ª parte

Antonio_Sergio_Valente

Para que serve a crítica?

[Antônio Sérgio Valente]

O ponto crucial da abordagem crítica é que o mundo, a ciência, o ser humano, as empresas, os governos, até mesmo as religiões transformam-se em face dela. É a crítica, o inconformismo ante determinada teoria, situação, obstáculo, modo de agir, pensar ou interpretar, que impulsiona e transforma o mundo, a ciência, a arte, a economia, a política, e, claro, as condutas humanas, incluindo as tecnocráticas e as tributárias.

A crítica pode estar contida numa manifestação artística, mas não necessariamente se caracteriza como obra de arte. É que esta dispensa o atributo da utilidade, mas não abre mão da estética, enquanto aquela é exatamente o oposto, embora não reste dúvida de que tanto uma como outra são mais admiráveis e saborosas quanto conjugam esses atributos. Quem não aprecia a crítica engajada e envolvente de um Saramago, de um Kafka, de um Vandré ou de um Chico Buarque?

No entanto, não é fundamental que a crítica contenha o elemento estético. Pode assumir a forma de uma dedução científica (constatação de algo comprovável por meio de hipótese, tese e teoria). Pode revelar algo que está ocorrendo na vida real, mas não vem sendo percebido como deveria. Pode configurar uma constatação de determinadas condutas em face de certas alterações nas normas, algo de que não se tinha notícia, mas que o grifo da crítica realça.

Eis um exemplo científico da utilidade objetiva da crítica. Alguém percebe um equívoco na teoria de que a Terra é um prato, afirma que é esférica, contesta o entendimento dominante, encontra resistência a princípio, mas depois de boa argumentação consegue uns adeptos, depois outros, vai reunindo mais e mais evidências, até que muitos percebem a procedência da crítica, sim, a Terra provavelmente não é um prato, a Terra é redonda, embora ainda a entendam como centro do universo, o equivocado geocentrismo.

A Terra esférica em relação à Terra achatada certamente foi uma crítica que gerou evolução científica, teve utilidade fundamental para o futuro da Física e da Astronomia, não obstante nela houvesse um equívoco: o pormenor de que a Terra seria o centro do universo. Isto permite compreender que mesmo quando uma crítica procede apenas em parte, ainda assim ela tem utilidade, eis que abre a perspectiva de novas especulações e leva ao passo seguinte.

No caso apontado, o passo seguinte veio através de outra crítica, a de Copérnico, que contestou o geocentrismo, garantiu que a Terra e outros planetas giravam em torno do Sol, o chamado heliocentrismo. Esta crítica de Copérnico foi, a princípio, quase totalmente ignorada, o autor menosprezado em vida, aceitaram a sua conjectura como nada mais que isso, mera hipótese não comprovada, tanto que Copérnico era tachado de fantasioso, visionário, excêntrico, como se sua tese fosse uma bobagem irrelevante. Tão ignorado ele foi que sequer o puniram por heresia, embora o geocentrismo fosse um dogma de fé, algo que supostamente constava nas sagradas escrituras, ou, melhor dizendo, numa leitura equivocada do livro de Gênesis.

Até que um dia, várias décadas depois, um cientista chamado Galileu Galilei demonstra que Copérnico estava certo, vislumbrara bem os movimentos astrais, embora não dispusesse de telescópio possante. Também Galileu será censurado por ratificar a tese de Copérnico, terá de dar inúmeras satisfações ao clero e ao meio científico de sua época. É que o enfrentamento do que está ossificado nas mentes sempre gera esse tipo de reação, de desconfiança, descrédito, incômodo; é a tal pedra no sapato à qual nos referimos no artigo precedente.

E por defender as posições de Copérnico e de Galilei, um certo Giordano Bruno seria queimado pela Inquisição, por heresia, por contrariar o dogma geocêntrico.

Como se vê no exemplo, as críticas procedentes, que a ciência do futuro comprovaria com fartas evidências, que hoje são tidas como favas contadas, que ajudariam, séculos depois, a levar o homem à Lua e suas naves não tripuladas a Marte, e a instalar milhares de satélites no espaço, que viabilizariam antenas parabólicas e toda a parafernália adjacente (sinais de celulares, rádios, tevês, rastreadores, etc), enfim, aquelas observações críticas que abririam caminho para tudo isso foram recusadas por décadas e mais décadas, repudiadas até com pena de morte…! Mas serviram para promover a evolução científica, sem dúvida, ampliaram horizontes, permitiram novas reflexões, deram ao homem um maior conhecimento acerca do universo, enfim, trouxeram luzes à humanidade.

Em outras palavras, a crítica bem fundamentada, mesmo quando encontra resistência e até represálias, é sempre útil, e mais cedo ou mais tarde acaba produzindo resultados.

Outro exemplo de crítica, esta de cunho sociológico, está no filme Lincoln, em cartaz, do Spielberg. A escravidão humana era um capítulo do direito de propriedade, pacífico, e não apenas nos Estados Unidos. Desde a antiguidade havia escravos. Era algo aceito com naturalidade, como se fosse normal, correto, justo, que um ser humano fosse escravizado por outro, pertencesse a outro. A moral aceitava aquilo até um século e pouco atrás. Hoje parece um absurdo inominável a escravidão, mas naquela época não era. Pelo contrário, quem se insurgisse contra ela, quem a criticasse, quem apontasse equívocos na escravidão, quem discordasse daquele instituto cruel é que estava fora dos padrões, era um revolucionário, um esquerdista maldito usurpador do direito de propriedade, etc. A escravidão era legal e moral. Lutar contra ela exigia coragem e ousadia.

O filme narra o esforço de Lincoln para abolir a escravidão, o jogo pesado que teve de fazer, a compra de consciências de parlamentares. Lincoln empregou uma variante da técnica do mensalão, já naquele tempo: cargos e funções — inclusive de fiscal alfandegário… — em troca de votos contra a escravidão. Pasmem. Estamos falando de um herói histórico. Mais que isso: Lincoln preferiu uma batalha sangrenta a um acordo de paz que implicaria na perda da luta pela abolição da escravatura. Decisões graves, polêmicas.

E por que Lincoln agiu daquele modo? Por que se arriscou tanto? Porque era um crítico feroz da escravidão, porque há muito lutava contra ela, porque tinha plena convicção de que a América só seria um país justo, unido e progressista se libertasse os escravos. E não há dúvida de que estava certíssimo, sua crítica da escravidão era perfeita, permitiu que os Estados Unidos dessem um passo decisivo na direção da potência que se tornariam, o fim da escravidão criou um vasto mercado de trabalho e alargou o de consumo. Lincoln deu um belo exemplo para o mundo. Exemplo que felizmente seria imitado.

Portanto, a critica fundamentada, convicta, construtiva, é sempre uma alavanca para a evolução, esta é a sua utilidade.

Na maioria das vezes, os resultados não são imediatos, que há um tempo de semear as ideias, outro de cultivá-las para que não pereçam ante as intempéries, outro de enraizamento das reflexões, outro de espera a fim de que a seiva percorra os veios da planta, forme a consciência das células e enrijeça o tronco, depois um tempo de resistir às pragas, aos vendavais reacionários, e finalmente um tempo de colheita dos frutos. Nas plantações da vida é assim que as coisas funcionam. É por isso que o exercício da crítica exige paciência.

De modo que não se espere um caminho muito tranquilo para o Blog da Afresp. É possível que haja uma ou outra resistência à própria ideia da crítica e do debate, embora nada que um bom diálogo não possa superar, razão pela qual será necessário trabalhar com muita persistência, responsabilidade e, sobretudo, com boas intenções.

Que venham as críticas, as réplicas, as tréplicas, enfim, o bom debate. Mas antes, no próximo artigo, vejamos o que acontece quando não há crítica nem contestação, quando todos se calam placidamente diante dos equívocos.

Discussão

Os comentários estão desativados.

.