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Diversos

Engaiolaram o Gavião

Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Mas será por pouco tempo, o próprio delegado admitiu.

Era a fofoca do dia no refeitório do supermercado em que Daiane trabalha como operadora de caixa: pegaram o Gavião numa arapuca gigante. O Gavião e setenta e sete colegas de Daiane, de mercados, lojas de rua e grandes magazines. Dezessete moças eram da própria rede Broa de Mel, sete da exata filial em que fofocavam, embora Daiane só conhecesse uma delas, por causa dos turnos, a Belinha Rodriguete, uma loirinha até que bonitinha, mas ordinária para burro.

Havia uns seis meses que a fiscalização, a polícia e a promotoria vinham monitorando os passos do perigoso Gavião e suas periguetes, como um jornalista apelidara o bando no título de uma reportagem. Era alusão jocosa à tatuagem no braço esquerdo do vigarista, que também se apresentava como cantor de rap, sob o pseudônimo de Maciel, o Metafórico, mas que para atingir a mediocridade teria de melhorar muito. A matéria o denegria de ponta a ponta, como artista e como pessoa; afirmava que era ave de rapina do rap, imitador sofrível de Marcelo D2 e de Gabriel, o Pensador, e ainda por cima mau-caráter.

Dizia a fofoca que as dezessete garotas do Broa de Mel estavam sendo demitidas por justa causa, sem direito a aviso-prévio nem saque de FGTS. O mesmo ocorreria com as das outras redes.

— Bem feito! Dançaram! — Jocenilda, a supervisora dos caixas, parecia vingada, ela que se sentira ofendida por um rap gravado pelo marginal intitulado Baleia Supervisora. O cedê fora colocado em sua mesa de trabalho por alguma subordinada anônima. O refrão era assim: gorda e grossa/ não tem quem possa/ com a mulher-joça. Mas o trecho que mais a irritara dizia: ninguém encaixa/ não cabe em caixa/ dói quando abaixa/ mas ela se acha… Era uma ofensa atrás da outra, ela até chorara ao ouvir aquilo. Agora estava vingada. — Bem feito para ele e também para elas. Quero que se ferrem! Só não foram presas porque o delegado ficou com dó.

— Dó o caramba — Ester, a decana das operadoras de caixa, corrigiu a supervisora. — A Belinha me contou assim: ‘dó-eu’ os olhos da cara e outros mais. Tadinha.

— Ela falou ‘doeu outros mais’!? — Daiane estranhou, a colega era de falar bem.

— A coitada não conseguia nem pensar, foi fichada e fotografada até de ponta-cabeça. Dormiu na delegacia. Está arrasada, com medo de voltar para lá e apodrecer no xadrez.

— Mas quando fez a besteira não pensou — Jocenilda queria ver sangue.

— Não é bem assim, meninas — Leurites se dispôs a explicar, ajeitou os óculos e cruzou as pernas; ela trabalha no setor fiscal e cursa Direito em Mogi das Cruzes, tem um ar de metida a sabichona. — Vai dar processo, mas talvez as meninas nem sejam condenadas. O delegado admitiu que estava em dúvida sobre o enquadramento, disse que é um caso sutil.

— Para dizer a verdade, ainda não entendi direito o que elas fizeram. Uns dizem que punham o CPF delas nos cupons, outros falam que os CPFs não eram delas…

— Os CPFs não eram delas, Ester, isso eu própria levantei — Jocenilda informou. — O pivô de tudo é o tal de Gavião, que é metido a rapper, mas não passa de um babaca. Vivia dando em cima das meninas. As que têm vento na cabeça caíram na lábia dele.

— Esse Gavião não é só o pivô, ele é o chefe do bando — Leurites acrescentou. — As meninas não punham o CPF delas, mas o dele e os de quem ele indicava. O delegado disse que o caso é complexo, porque para configurar estelionato alguém tem de ser induzido a erro, mas as caixas não induziram os consumidores a nada, eles é que abriram mão do benefício espontaneamente. De certo modo, as meninas é que foram induzidas a erro pelo tal Gavião, e neste caso elas é que seriam as vítimas. Percebem como é complicado?

— Mas se é assim, por que as demissões por justa causa? — Daiane ainda em dúvida.

— Porque está na cara que elas não são vítimas — Jocenilda respondeu por Leurites. — Elas erraram. Levavam uns trocos, ou só uns craus, eram tão cretinas…

— Mas se você mesma disse, Leurites, que o que elas fizeram não é crime… — Ester ignorou o aparte de Jocenilda e demonstrou que tinha a mesma dúvida de Daiane.

— Quem disse que eu disse que não é crime?

— Você. Agora há pouco. Todas ouvimos.

— Se alguém ouviu isso, precisa tirar cera da orelha. Eu disse que é difícil configurar o es-te-li-o-na-to. Aliás, eu não disse nada, só repeti as palavras do delegado. Mas inserir num documento declaração diferente da que devia ser escrita pode tipificar falsidade ideológica, se isto prejudicar o direito de alguém. Entenderam? Por isso é que elas foram fichadas, para apurar se alguém foi prejudicado.

— Mas se já sabem que os consumidores não indicavam o CPF…

— Pois é, Daiane, esse é o problema. Por enquanto, é uma zona nebulosa. A vítima é incerta, talvez difusa, e não há tipificação específica para o caso.

— Vítima difusa…! Mas que baita confusa…! — Jocenilda gracejou e as outras riram, exceto Leurites.

— Ninguém sabe direito quem é a vítima, se os consumidores ou o Estado de São Paulo e os municípios, talvez até seja um crime sem vítima, é isso que estou tentando explicar, mas pareço confusa porque quem me ouve é que é meio obtusa.

— Calma, Leu, eu não disse que você é confusa, mas que a situação é que é confusa.

— E é mesmo, o que posso fazer? Nenhuma vítima se apresentou para dizer que foi enganada, que mudaram o CPF dela na boca do caixa, nada disso. O fisco é que descobriu que o tal Gavião e o pessoal dele tinha o dom da ubiquidade.

— Ubiquidade…!? Leurites, você hoje está se superando. Que bicho é isso?

— É a prova de que, apesar de supervisora, você é obtusa mesmo.

— Também não sei o que é — Daiane aparteou e apartou, Jocenilda aprovou.

— Ubiquidade é o poder de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.

— Já sei, como o Frei Galvão…! — Ester exemplificou.

— Como o Frei Galvão e outros santos. Acontece que o apelido do cara é Gavião e não Galvão. Ele não é nenhum santo, pelo contrário. Apareciam compras com o CPF dele, ou da mãe dele, ou dos irmãos dele, ou dos cupinchas dele, em vários lugares, quase ao mesmo tempo, e o pior, o tempo todo, centenas de vezes ao dia.

— Ouvi o delegado falando isso na tevê. Ele até brincou que se fosse verdade o que constava nos cupons, os donos dos CPFs não dormem há uns seis meses, pois há casos em que aparecem compras em intervalos pequenos, inclusive de madrugada.

— E o pior, Ester, é que um registro era em São Miguel, na zona leste, e outro, três minutos depois, no Grajaú, nos cafundós da zona sul.

— A não ser que o dono do CPF fosse de helicóptero — Daiane tentou explicar o inexplicável.

— Que nada, era compra a jato — Ester riu.

— Nem se ele fosse com foguete da Nasa… — Jocenilda gargalhou, mas se conteve logo, pois costuma urinar quando ri demais.

Só Daiane não caçoou, estava meio triste, não tanto pelas meninas, mais pelo Maciel.

— Será que ele vai mofar na cadeia? — ela perguntou a Leurites.

— Que nada. Logo ele sai. Se for absolvido, pode até processar o Estado por danos morais. E se for condenado, talvez tenha direito a sursis. Ou saia na condicional. Tudo pode acontecer. O próprio delegado disse que o Gavião vai ficar engaiolado por pouco tempo.

Leia as crônicas anteriores:

As garras do Gavião

O CPF do Gavião

 

Discussão

2 comentários sobre “Engaiolaram o Gavião

  1. Parabéns, Sergio Valente.

    Publicado por Laé de Souza | julho 25, 2013, 9:57 am

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